A mola espiral é uma peça importante no seio de um movimento mecânico de relojoaria. A mola espiral funciona como órgão regulador quando combinada com o balanço. Atua como uma mola para o balanço e permite que este regresse ao ponto de partida a cada oscilação. Por outras palavras, a mola espiral serve para marcar o ritmo. Mais especificamente, a mola espiral comprime-se para equilibrar a força transmitida e, em seguida, expande-se para devolver o balanço ao ponto de partida. Permite, assim, que o relógio automático tenha uma precisão genuína. A mola espiral constitui, juntamente com o balanço, o chamado «ressonador» do relógio mecânico, responsável por fixar, da forma mais estável possível, uma frequência de oscilação.
- Fisicamente, a mola espiral é uma pequena mola enrolada no plano horizontal em espiral, daí o seu nome. A mola espiral é extremamente fina; para se ter uma ideia, é mais fina do que um cabelo, com uma espessura inferior a 0,03 mm e um peso inferior a 2 mg. A mola espiral é frequentemente de aço, mas alguns relógios estão equipados com molas espirais de silício. A mola espiral é um componente essencial do relógio e um dos mais complexos de conceber devido à sua finura, fragilidade e comprimento.
- Uma vez acoplado a um balanço, a mola espiral gira num sentido e depois no outro, ou seja, oscila em torno da sua posição de equilíbrio. Se a mola espiral o fizer com regularidade, isso produz um fenómeno recorrente e torna-se uma base de contagem que as engrenagens transformam em segundos, minutos ou horas. A mola espiral recebe a energia produzida no interior do relógio e calibra-a para que essa energia se traduza em informação.
As origens da mola espiral do relógio
A mola espiral foi inventada já na Antiguidade. Este tipo de mola foi utilizado, por exemplo, no fecho das fíbulas, as antecessoras dos alfinetes de segurança. Encontra-se também nas fechaduras da Idade Média e, mais tarde, para acionar os mecanismos dos relógios com mola espiral.
A sua utilização como órgão regulador de relógios remonta ao século XVII. Três homens, entre os quais dois cientistas de renome, disputam a primeira aplicação: o abade de Hautefeuille, Christian Huygens e Robert Hooke. Por volta de 1675, o físico, matemático e astrónomo holandês Christian Huygens inventou a utilização de uma mola enrolada em espiral, associada a um volante de inércia, para regular os relógios. Huygens apresenta o seu primeiro relógio com mola em espiral no «Journal des Savans» e confia a sua confeção a Isaac Thuret, um dos melhores relojoeiros de Paris. No entanto, quando pretende registar a sua descoberta no parlamento, o abade Hautefeuille opõe-se, explicando que já tinha pensado nisso anteriormente. Por seu lado, o inglês Robert Hooke, também astrónomo e matemático, apresentou uma proposta idêntica para a utilização da mola espiral como regulador de relógios. Confrontou-se então com Huygens para defender a autoria desta invenção.
Uma mola espiral de relógio que suscita debate: mola espiral de metal ou de silício?
A mola espiral é uma peça complexa, difícil de fabricar, e poucas empresas a produzem. Para funcionar corretamente, a mola espiral deve manter a sua forma. No entanto, com o ritmo acelerado de oscilações a que é submetida, não é fácil recuperar sempre a mesma forma. Como referido anteriormente, a mola espiral é constituída por metal. Ora, este material é sensível ao magnetismo e às variações de temperatura, fatores que alteram a forma da mola espiral. Com efeito, o calor dilata o metal e o frio contrai-o. Assim, para que a mola espiral mantenha a sua forma inicial e consiga oscilar à mesma frequência, tem de ser resistente à oxidação, ao magnetismo e às variações de temperatura. Isto exige que a mola espiral seja elástica e flexível, para se deformar e recuperar a sua forma. Quando não consegue recuperar a sua forma, os relojoeiros trabalham o metal desta peça, cortando-a para lhe devolver a forma inicial.
Para resolver este problema, o metal da mola espiral é substituído, ao longo do tempo, por silício, um componente essencial do vidro e que também se encontra na areia. A mola espiral de silício tem a característica de manter sempre a sua forma. Ao contrário de uma mola em metal, a mola em silício é moldada e fabricada com a forma correta desde o início. Com efeito, enquanto o metal pode ser trabalhado e cortado para ajustar a forma da mola, o silício não pode ser trabalhado, pois parte-se. Uma mola espiral de silício é menos sensível ao calor e, por isso, mais precisa, além de não se magnetizar. A mola espiral de silício foi utilizada pela primeira vez na relojoaria em 2001, tendo para tal o relojoeiro Ludwig Oechslin estabelecido uma parceria com a marca Ulysse Nardin. A investigação necessitava de recursos e três empresas decidiram financiá-la: a Patek Philippe, o Swatch Group e a Rolex. Estas empresas registaram uma patente relativa à utilização da mola em silício e aos resultados obtidos. Eram as únicas a ter o direito de a explorar. Estas patentes relacionadas com o silício passarão a ser de domínio público em 2022. Assim, nos próximos anos, assistiremos à popularização da mola espiral de silício nos relógios mecânicos.
O mundo da relojoaria evolui ao longo dos anos e com os avanços tecnológicos. A mola espiral é um exemplo que demonstra, mais uma vez, até que ponto a inovação continua a ser possível através da combinação de saber-fazer, tradição e técnica, o que, por vezes, suscita debate, nomeadamente na fronteira entre a relojoaria e as novas tecnologias.
En lire plus

Gostaria de usar um fato, mas não sabe que estilo de relógio escolher? Aqui ficam algumas sugestões para o ajudar a fazer a sua escolha!

Entre tradição e inovação, a relojoaria francesa está a viver um novo impulso. Descubra como as feiras TimeFest, em Bordéus, e We Love Watches, em Paris, celebram este renascimento.









































